Uvas pioneiras na região de Pinhal: variedades menos conhecidas

A vitivinicultura brasileira passou por transformações significativas nas últimas décadas, e uma das regiões que mais se destacou nesse…

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A vitivinicultura brasileira passou por transformações significativas nas últimas décadas, e uma das regiões que mais se destacou nesse novo cenário é Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo. Tradicional ao cultivo do café, o município hoje vê seus campos serem ocupados por vinhedos que originam rótulos premiados e reconhecidos nacional e internacionalmente. 

Embora a Syrah siga como a grande protagonista dos parreirais, graças à sua comprovada adaptação ao terroir e ao manejo com dupla poda, outras variedades começam a despontar como novas apostas de produtores que buscam diversificar estilos e ampliar o portfólio da região.

Neste artigo, vamos explorar algumas das uvas menos conhecidas de cultivo em Pinhal. Vamos analisar seu potencial enológico e destacar o papel das vinícolas que investem na diversidade como caminho para fortalecer a identidade vitivinícola local.

Além da Syrah e Sauvignon (Blanc): o novo ciclo da viticultura

Espírito Santo do Pinhal despontou no radar das uvas para vinho nacional. Especialmente a partir da década de 2010, quando vinícolas como a Guaspari começaram a colher frutos – literalmente – do manejo com dupla poda. 

A técnica de Murillo de Albuquerque Regina, pesquisador da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), consiste em podar a videira no verão, invertendo o ciclo produtivo da planta. Dessa forma, a maturação das uvas ocorre durante o inverno, mesmo com clima seco e grande amplitude térmica. O resultado são frutos mais equilibrados, sadios e com alto potencial aromático e fenólico.

Foi assim que a Syrah se consolidou como a grande estrela da viticultura de inverno em Pinhal. A variedade, originária do Rhône, encontrou no local um terreno fértil para expressar elegância, estrutura e complexidade, com comparação frequente aos exemplares do Velho Mundo

A Sauvignon Blanc se adaptou bem. A grande amplitude térmica do inverno é ideal para preservar sua acidez vibrante, dando origem a brancos frescos e aromáticos que surpreendem em qualidade e tipicidade.

Junto a essa dupla de sucesso, outras castas internacionais também encontraram seu espaço. As tintas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, embora exijam mais cuidado no manejo, produzem vinhos estruturados e complexos. 

Entre as brancas, a Chardonnay mostra sua versatilidade em vinhos que vão desde os mais frescos e sem madeira até os mais cremosos e amanteigados, de fermentação em barrica. Além disso, a delicada e Pinot Noir tem sucesso crescente, produzindo vinhos elegantes e aromáticos. 

Este conjunto de uvas formou a base sólida da vitivinicultura na região. Elas provaram que era possível fazer vinhos de alta qualidade em um terroir antes impensável. Agora, Espírito Santo do Pinhal vive um novo momento, em que os produtores começam a se perguntar: “O que mais é possível?” e, assim, investem em novas possibilidades.

Uvas menos conhecidas na região de Pinhal

Enquanto a Syrah e Sauvignon Blanc desfrutam de reconhecimento, novas variedades de uvas estão aparecendo em Pinhal, com grande potencial. Entre elas, algumas castas de renome internacional, familiares para enófilos mais experientes, que, entretanto, ainda não fazem parte do vocabulário habitual do consumidor médio brasileiro.

Viognier

Embora não seja uma completa novata – a Vinícola Guaspari foi pioneira em sua aposta-, a Viognier vem sendo explorada por outros produtores com excelentes resultados. Contudo, a uva ainda é pouco conhecida pelo grande público.

Tradicional do Rhône, na França, essa uva é capaz de produzir vinhos brancos de grande expressão aromática, destacando notas de damasco, pêssego, flores brancas e especiarias, e textura aveludada. Em solo pinhalense, ela mostra o potencial de oferecer vinhos gastronômicos, com complexidade e estrutura para ir além do frescor, harmonizando com pratos mais robustos.

Chenin Blanc

Originária do Vale do Loire, a Chenin Blanc é uma casta francesa que tem grande versatilidade. É capaz de originar desde vinhos secos e minerais até exemplares doces e espumantes. Sua principal característica é a acidez elevada, que lhe confere um frescor incrível e um grande potencial de envelhecimento. Seus aromas variam de maçã verde, frutas tropicais e flores brancas em vinhos jovens a marmelo e mel em vinhos maduros.

Em Espírito Santo do Pinhal, ela começa a ter cultivo com foco em vinhos brancos secos, explorando sua acidez natural e seu frescor, características que podem se destacar sob o clima de inverno seco proporcionado pela dupla poda.

Marsanne

Marsanne, outra uva branca originária do Rhône, aparece como uma opção interessante para cortes com Viognier ou então varietais. Menos exuberante nos aromas, mas com possibilidades notáveis de evolução em garrafa, essa uva apresenta corpo mais robusto e textura aveludada, bem como intensidade de boca.

Nebbiolo

No campo das tintas, a Nebbiolo é um nome ousado. A rainha do Piemonte, na Itália, responsável pelos icônicos e longevos Barolo e Barbaresco, é uma uva notoriamente difícil, de ciclo longo, que exige condições muito específicas para amadurecer seus taninos potentes. 

No entanto, o cultivo dessa uva em Pinhal é promissor, com os primeiros resultados indicando que, sob manejo adequado, ela pode oferecer vinhos de estrutura fina, taninos firmes e grande complexidade.

Sangiovese

A alma da Toscana e a base de vinhos como o Chianti Classico e o Brunello di Montalcino, a Sangiovese é outra aposta italiana na Mantiqueira. Caracteriza-se pela alta acidez, taninos redondos e aromas que mesclam frutas vermelhas ácidas (cereja, amora) com notas terrosas e herbáceas (folha de tomate, orégano). Sua adaptação em Pinhal pode resultar em vinhos tintos gastronômicos por excelência, com um perfil mais leve diante da opulência da Syrah.

Adaptação e potencial enológico

O sucesso da vitivinicultura de Espírito Santo do Pinhal tem ligação direta à técnica da dupla poda. A técnica inverte o ciclo da videira, promovendo assim a maturação das uvas durante os meses secos e frios do inverno. Essa condição, junto à altitude e às características do terroir, foi determinante para a adaptação de castas como Syrah e Sauvignon Blanc, bem como de outras já bem estabelecidas na região:

  • Cabernet Sauvignon
  • Cabernet Franc
  • Chardonnay 
  • Pinot Noir (mesmo com desafios)

No entanto, o cultivo de novas variedades de uvas em Pinhal apresenta um conjunto adicional de exigências. Cada casta exige uma compreensão profunda de suas necessidades e um ajuste fino no manejo do vinhedo. 

O primeiro e maior desafio é a adaptação ao sistema de dupla poda. Os viticultores precisam aprender como cada casta responde à poda drástica de verão e como ela se comporta durante o ciclo de inverno.

As primeiras experiências com variedades menos comuns indicam um cenário promissor para a diversificação do portfólio de vinhos da região. Entre as brancas, Viognier e Chenin Blanc mostram boa adaptação, mantendo acidez e frescor, características fundamentais para a produção de vinhos equilibrados, aromáticos e com boa expressão varietal. A Marsanne, ainda em fase inicial, surge como uma opção interessante para agregar corpo e complexidade, especialmente em cortes.

No campo das tintas, a Sangiovese surpreende positivamente por sua boa produtividade e pelo seu perfil sensorial que destaca frescor, notas frutadas e taninos macios – atributos valorizados no mercado atual. Já a Nebbiolo representa um desafio maior. Sua natureza complexa e sua alta exigência quanto a solo, clima e insolação tornam sua adaptação mais delicada. No entanto, caso não atinja o ponto de equilíbrio, o potencial para vinhos de grande estrutura e elegância é significativo.

Iniciativas pioneiras e papel das vinícolas

O protagonismo das vinícolas da região é central neste novo ciclo da vitivinicultura na região. A Vinícola Guaspari, pioneira por aqui, foi responsável por estabelecer as bases da viticultura de inverno. Com ela, houve comprovação de que era possível produzir vinhos de alta qualidade e reconhecimento internacional fora dos tradicionais polos vitivinícolas brasileiros. 

Sua consolidação no mercado serviu de estímulo e abriu portas para que outras vinícolas também apostassem na região, desenvolvendo projetos próprios com foco em identidade, inovação e diferenciação.

Cada produtor, à sua maneira – sejam vinícolas pioneiras ou novas iniciativas -, apostam na excelência como caminho para consolidar Espírito Santo do Pinhal no mapa dos grandes vinhos brasileiros.

Conclusão 

A viticultura em Espírito Santo do Pinhal é uma história que quebra paradigmas. O que começou como uma aposta audaciosa com a técnica da dupla poda consolidou-se com o sucesso de uvas como Syrah e Sauvignon Blanc, que estabeleceram a reputação da região e comprovaram a excelência do terroir da Mantiqueira para a colheita de inverno.

Agora, novas variedades de uvas começam a ganhar espaço nos vinhedos de Pinhal. E essa busca por diversidade não se resume à adição de novos rótulos ao mercado. Trata-se de um movimento para fortalecer a identidade regional e assim contribuir, de forma genuína, para a ampliação e o enriquecimento do perfil dos vinhos brasileiros.

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